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Literatura e Sociedade N.19 (2014)

 

Literatura e Sociedade N. 19 (2014)

 

 

A Revista Literatura e Sociedade está disponível online no Portal de Revistas da USP. Confira o conteúdo completo deste número, acessando nossa página: http://www.revistas.usp.br/ls/issue/view/7302

 

Editorial

Este número da Literatura e Sociedade oferece ao leitor um segundo dossiê sobre a voz, dando sequência ao conjunto reunido no número anterior, além de textos nas seções Depoimentos e Rodapé que se debruçam sobre o mesmo universo de preocupações. Antes deles, na seção de ensaios, congregam-se três artigos inéditos de pesquisadores brasileiros sobre temas diversos.

O primeiro deles, de Érico Melo, começa com uma crítica a modelos deterministas e unilaterais da interação entre ficção e geografia, propondo então que o romance, visto como “mais um corpo físico imerso no sistema de eventos da realidade”, seja entendido como um ato de fala “que afeta a subjetividade que percebe e concebe o sistema ao interferir nos ‘modelos gerais de significação e de representação’”. O artigo mapeia diferenças entre vozes narrativas em alguns romances brasileiros do século XX, divididos entre “sertanejos” e “urbanos”, com destaque para análises iluminadoras das fabulações espaciais de Esaú e Jacó e Grande sertão: veredas. Além da exposição de pesquisa concluída, trata-se, como talvez se possa perceber mesmo aqui, da proposta de um roteiro de estudos futuros do tratamento dado pela ficção e a crítica brasileiras ao embate entre o sertão e a cidade.

No artigo “Torquato Neto: ‘Começa na lua cheia e termina antes do fim’”, Viviana Bosi dá continuidade à pesquisa sobre a poesia brasileira das últimas décadas que vem desenvolvendo faz algum tempo, desta vez com o exame de três momentos da produção artística de Torquato Neto (meados dos anos 60, final da mesma década e começo dos anos 70). Comentando a produção do autor em suas várias facetas, incluindo poemas, letras de música, artigos de jornal, diários e cartas, com mergulhos verticais em obras específicas, que merecem análises mais detalhadas, o percurso de Torquato é lido como tristemente sintomático das transformações estéticas, sociais e políticas pelas quais passou o país. Isto é apontado tanto na reação ambivalente de Torquato ao desenraizamento, ao mesmo tempo culpada e exaltada, quanto no desfecho de sua trajetória, a carta-poema de despedida vista como “sintomática dos desejos irrealizáveis de uma geração”.

Finalmente, saindo do campo da literatura brasileira, Daniel Bonomo aborda “Schiller e a continuidade idealista na teoria do realismo burguês alemão”, identificando no realismo alemão de 1850 sinais de continuidade com o idealismo anterior. Após uma revisão do pensamento de Schiller, a exposição da hipótese virá com a descrição e análise das posições de três autores associados à teoria realista – Theodor Fontane, Otto Ludwig e Julian Schmidt. Em comum entre eles, sugere o autor, haverá o desejo de conciliação dos opostos e a busca da manutenção da autonomia estética através da atualização do idealismo.

O dossiê da revista – “A voz como produção de um limiar” – volta a enfrentar o problema da voz, desta vez percorrendo um complexo que inclui a literatura e outras práticas artísticas e também a antropologia, a história, a teoria literária e a tradução. Organizado por Roberto Zular, responsável também pela apresentação, à qual remetemos o leitor, contém artigos de Pedro Cesarino (“A voz falível – ensaio sobre as formações ameríndias de mundos”), Paulo Teixeira Iumatti (“Vozes negras na cantoria (1870-1925): o caso de Severino Perigo”), Álvaro Faleiros (“A voz e o silêncio em Paulo Henriques Britto e Haroldo de Campos tradutores”), Marília Librandi-Rocha (“Escritas de ouvido na literatura brasileira”), Annita Costa Malufe e Silvio Ferraz (“Música e voz para além do som”) e Verónica Galíndez (“A partilha de voz em Pascal Quignard”). Neste número as duas últimas seções da revista – Depoimento e Rodapé – também vão dialogar diretamente com o dossiê. Na primeira, um relato de Jerusa Ferreira (“Oralidade, corpo e gesto: das teorias a Mart’nália”), um texto que, mantendo marcas de oralidade em sua forma escrita, narra a descoberta, pela pesquisadora, da música e performance da cantora Mart´nália, em quem enxergará canto e gesto “em sua gramática mais intensa”. Fechando a revista, traduções de dois textos importantes para a discussão levada a cabo no dossiê: “A política da voz”, de Mladen Dolar, e “Bucalidade”, de Sara Guyer, traduzidos respectivamente por Fábio Roberto Lucas e Érico Melo. O texto de Dolar, que complementa seu “A ética da voz”, publicado no número anterior desta revista, apareceu originalmente como capítulo do livro A Voice and Nothing More (MIT Press, 2006). O ensaio de Guyer foi publicado um ano depois, no volume Derrida, Deleuze, Psychoanalysis, editado por Gabriele Schwab para a Columbia University Press.