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Literatura e Sociedade N.18 (2014)

Literatura e Sociedade N. 18 (2014)

 

A Revista Literatura e Sociedade está disponível online no Portal de Revistas da USP. Confira o conteúdo completo deste número, acessando nossa página: http://www.revistas.usp.br/ls/issue/view/7053

 

          Se até 2012 as edições da Literatura e Sociedade eram organizadas em torno de núcleos temáticos específicos (crítica feita por criadores na número 16; teatro na número 15; realismo na 14, etc.), a partir de 2013 a revista passou a ter uma seção fixa de ensaios, sem restrição de tema, ao lado de um dossiê organizado por um pesquisador convidado. Este número da revista dá continuidade a esta divisão, com três ensaios seguidos de um dossiê composto por textos sobre a questão da voz, conjunto que terá continuidade na próxima edição da revista. Mantêm- se ativos, ainda, os já tradicionais Depoimento e Rodapé, onde são reproduzidas entrevistas e resenhas e publicamos traduções de textos importantes como referência para a àrea.

           Se a seção de ensaios comporta estudos sobre qualquer aspecto do fenômeno literário, neste número os três artigos têm em comum o foco na literatura brasileira. Em primeiro lugar, abrindo a revista, “La nueva poesía brasileña y la realidad social”, artigo de fôlego de Rodolfo Mata que reúne parte da pesquisa sobre poesia brasileira que o crítico, poeta e tradutor mexicano vem desenvolvendo nos últimos anos (as notas de rodapé, com traduções de Mata para poemas de Francisco Alvim, Chacal, Claudia Roquette-Pinto, Fabio Weintraub, Régis Bonvicino e Fabrício Carpinejar, são desde já uma referência valiosa para leitores de língua espanhola). O movimento analítico desenhado por Mata vai encontrar, na poesia brasileira contemporânea, ecos de impasses presentes já na poesia dos anos 60 e 70. Após um recuo histórico inicial, em que o ensaio volta ao ambiente cultural pré-1964, o artigo avançará pelas décadas seguintes, passando por respostas críticas à noção de engajamento e algumas tentativas de mudança de rumo, nas quais, segundo a avaliação do autor, persiste intocável a confiança no lugar especial reservado à poesia. Mata então se detém na produção recente de quatro poetas (Claudia Roquette-Pinto, Fábio Weintraub, Régis Bonvicino e Fabricio Carpinejar), apesentando leituras cuidadosas de poemas de cada um e dialogando também com a fortuna crítica brasileira. Sua interlocutora privilegiada, nesse momento, será Iumna Maria Simon, cujas hipóteses levarão o autor a uma extensa revisitação de The Return of the Real de Hal Foster, destacando o que considera diferenças importantes entre as artes plásticas e a literatura que criariam dificuldades para a transposição da tese do “retorno do real” à poesia brasileira contemporânea.

           Em seguida, ainda no campo da literatura nacional mas em chave comparatista, Gilmário Guerreiro da Costa examina, em “Éros platônico e trágico no Grande sertão: veredas”, elementos intertextuais tomados dos diálogos Fedro e Banquete e retrabalhados no romance de Guimarães Rosa. Após revisitar a noção de “amor platônico”, o autor parte de indicações de Benedito Nunes e Suzy Sperber e analisa como a tradição filosófica se metamorfoseia no romance, em processo que será chamado de “intertextualidade alquímica”. Como hipótese de leitura, o artigo argumenta que o resultado dessa operação é uma narrativa que coloca em destaque, mais ainda do que os textos platônicos, a tragicidade do tópico do amor. Assim, não estará disponível no Grande sertão a saída da reconciliação ou da síntese, dado que a lingua- gem, como Diadorim, será representada como uma unidade impossível.

           Em “Graciliano Ramos da escravidão à sedição”, terceiro e último ensaio deste número, Fabio Cesar Alves concentra-se no relato de um episódio presente na primeira parte das Memórias do cárcere – a viagem que em 1936 leva o autor e outros prisioneiros ao Rio de Janeiro –, para encontrar nele tanto a representação de impasses estruturais da sociedade brasileira quanto a dolorosa autoacusação do autor. Assim, na leitura das Memórias que o artigo propõe, a reconstrução da experiência na cadeia permite ao escritor formular uma resposta política ao presente – o texto é escrito nos anos 1940 – e, ao mesmo tempo, em movimento destacado por Alves, apresentar a própria experiência, ligada ao passado oligárquico, para a análise política. Através da experiência de narrá-los posteriormente nas Memórias, Graciliano perceberá nos acontecimentos do período o modo como a ordem colonial era atualizada pelo Estado moderno. O interesse da justaposição do público e do privado aumenta, sugere Alves, dada a escassez de textos como o de Graciliano na tradição brasileira, onde o exercício público do exame de consciência através da escrita é raro.

           Fecha-se, com esse artigo, a trinca de ensaios do número, para dar lugar ao dossiê sobre a voz apresentado e organizado por Roberto Zular. Nele há artigos de Mladen Dolar (o inédito “What’s in a voice?”), Philippe Willemart (“A luta de Jacó com o Anjo: o crítico entre o gozo e o texto móvel do manuscrito”), Jean-Michel Vivès (“La pulsion invocante sur la scène beckettienne ou ‘Qu’est-ce que s’entendre?’), Rosie Mehoudar (“Canto e Palavra emanando de Igitur”) e Conrado Ramos (“O lugar da função poética na poli(a)fonia do objeto voz em psicanálise”). Complementam o conjunto de textos do dossiê dois textos traduzidos ao português especialmente para a revista. O primeiro, “A Ética da Voz”, também de Dolar, é um capítulo do livro A Voice and Nothing More, ainda não publicado em português e traduzido aqui por Fábio Roberto Lucas. A segunda tradução, de Cláudia Soares Cruz, torna disponível em português “Beckett em sua época/Beckett em nossa época” de S. E. Gontarski. Ainda no Rodapé da revista, André Goldfeder resenha o novo livro de Philippe Willemart, Psicanálise e teoria literária: o tempo lógico e as rodas da escritura e da leitura, em “A criação fora do tempo”.

           Finalmente, em depoimento que interessará a leitores das literaturas mexicana e brasileira, publicamos uma entrevista inédita com o escritor Daniel Sada (1 953-2011 ), romancista, contista e poeta mexicano, autor de Porque parece mentira la verdad nunca se sabe, Casi nunca, La duración de los empeños simples e Aquí, entre outros. A entrevista, concedida a Rodolfo Mata em 2003, trata sobretudo da relação de Juan Rulfo, com quem Sada conviveu durante anos, com a literatura brasileira, em particular com Guimarães Rosa.