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Literatura e Sociedade N.16 (2012)

Literatura e Sociedade N. 16 (2012)

 

A Revista Literatura e Sociedade está disponível online no Portal de Revistas da USP. Confira o conteúdo completo deste número, acessando nossa página: http://www.revistas.usp.br/ls/issue/view/5281

 

 

               Editorial

 

          A perspectiva que norteia este número da Revista Literatura é a do diálogo que se estabelece entre os criadores por meio do exercício da crítica. Interessa-nos o olhar crítico dos criadores, mas tomamos como ponto de partida a liberdade e mobilidade desse olhar, de tal modo que o diálogo entre os criadores nos leva também a refletir sobre a interação entre a literatura e as diferentes artes. Trata-se, em outras palavras,  de contemplar variadas formas de comunicação entre a literatura e as artes por meio do diálogo crítico e criativo entre escritores, entre artistas ou, ainda, entre artistas e escritores – e de considerar tanto a fecundação recíproca das obras que se pode captar pelo discurso crítico dos criadores quanto a iluminação recíproca das artes e da literatura que tal discurso pode promover.
Os ensaios que compõem estes número refletem sobre a crítica realizada pelos criadores num arco temporal que se estende da época romântica até os dias de hoje.
           Estes números não poderia deixar de dar voz, mais diretamente, aos próprios criadores. Essa voz está presente no “Dossiê”,  dedicado a dois momentos da crítica musical no Romantismo alemão.  A voz do poeta (e do gravurista) se faz também presente no “Depoimento” de Alberto Martins, no qual ele se interroga sobre a diferença entre o trabalho crítico e o trabalho artístico e se pergunta sobre por que não se dedicou até hoje à crítica.

         O texto de Alberto Martins nos fornece o mote para iniciarmos aqui um percurso por algumas reflexões contidas nos ensaios destes dois número: veremos que muitas dessas reflexões podem ser pensadas sob a ótica da escolha, ou melhor de diferentes escolhas, em diferentes níveis. Num primeiro plano, encontra-se o dado fundamental de que alguns criadores decidem se dedicar à crítica, outros não. Essa decisão já é, por si só, carregada de significado. Tal fato nos leva ainda a pensar sobre nosso tema pela perspectiva da história literária (e a refletir sobre os dias de hoje): o trânsito entre invenção e crítica foi particularmente intenso no período romântico, e já foi mais de uma vez apontado como uma das marcas da modernidade, desde Baudelaire.

         Num plano mais individual, há a escolha do objeto ao qual o olhar de cada um dos criadores se volta. Tal escolha se reveste de inúmeros significados. É por ela, entendida como liberdade do olhar crítico, que pode se dar o diálogo entre as diferentes artes e a literatura.  Ademais, a escolha do objeto e o discurso que o criador a ele dedica revela a natureza bifronte dessa espécie tão peculiar de crítica: ele nos diz algo a obra contemplada (quadro, escultura, composição musical, obra literária..), mas também sobre aquele que escolheu tratar de determinado objeto artístico ou literário, e sobre sua própria produção. Por essa dimensão, a crítica dos criadores é muitas vezes uma forma de reconhecimento. Tal perspectiva está presente em todos os ensaios destes números.

        Para além do plano individual, a decisão de dedicar um texto crítico a esta ou aquela obra é muitas vezes marcada pelo anseio de intervir em determinado contexto artístico-literário. A escolha, nesse caso, é também uma escolha estratégica pela qual se busca tanto dar sentido e abrir espaço à novidade, quanto lançar sobre obras do passado uma nova luz, modificando-lhe o sentido e, com isso, projetando no futuro um solo propício para a própria criação. Muitos dos textos aqui reunidos nos levam a refletir sobre o fato de que a crítica dos criadores pode ser, como dissemos acima, uma forma de reconhecimento, mas também pode ser uma maneira de ir contra, seja atacando diretamente, seja por pessoa interposta

         Por fim, há ainda a escolha formal (fundamentalmente livre) que marca a produção crítica dos criadores, e sobre a qual todos os textos aqui reunidos refletem: a liberdade do ensaio, a liberdade na prosa, o poema, o retrato e a incorporação do discurso crítico à própria obra de criação.

          Nestes números de Literatura e Sociedade, a produção crítica dos criadores – que esfumaça os contornos entre a criação e a crítica, entre a literatura e as artes –  coloca-se como um ponto de vista a partir do qual podemos indagar-nos hoje sobre a natureza da crítica e sobre a natureza da criação artística e literária.