Graduação Pós-Graduação Pesquisa Extensão Biblioteca Intercâmbios Comunicação A FFLCH  
Skip to Content

Literatura e Sociedade N.14 (2010)

Literatura e Sociedade N.14 (2010)

 

A Revista Literatura e Sociedade está disponível online no Portal de Revistas da USP. Confira o conteúdo completo deste número, acessando nossa página: http://www.revistas.usp.br/ls/issue/view/5266

 

Editorial

 

O realismo em nossa vida

 

          Se tomarmos por base Raymond Williams e o Diccionario da lingua portugueza, o realismo na sua acepção anti-idealista é uma palavra do século XIX: passou a ser usada na França desde 1830, na Inglaterra a partir de 1850; e o primeiro registro no léxico de Antônio de Morais Silva data da edição de 1858. Desde então o próprio conceito, bem como sua aplicação literária ou crítica, teve seus altos e baixos, encarou contradições, envolveu polêmicas, prestou-se à designação de uma escola literária e conseguiu sobreviver a ela, ainda que muita vez tenha sido e continue a ser visto com desconfiança, como se fosse um bufão mentiroso ou um ardil sutilmente armado para apanhar incautos. Em um artigo inédito no Brasil e aqui agora publicado, o crítico inglês Ian Watt refere-se ironicamente a essas controvérsias como “desgastadas” ou “deterioradas”. O termo em inglês, “fly-blown”, sugere algo que foi deixado tanto tempo exposto que atraiu as moscas, serviu como matéria para que elas ali depositassem seus ovos – e possivelmente já vem sendo devorado pelas larvas que deles eclodiram. Estaríamos correndo o risco de trazer à luz, portanto, algo que, ao pé da letra, está virtualmente “bichado”? Se o perigo tem algum fundamento, as medidas para que não incorramos nele parecem bastante convincentes. No mesmo artigo, Watt mostra, por exemplo, que o velho e bom realismo como método geral de representação da realidade e como postura crítica está em excelente forma, sim senhor. Refletindo sobre seu aspecto mais amplo – isto é, não só ultrapassando por um lado a ideia da obra de arte como “espelho fiel” da sociedade e, por outro, o alcance de determinada escola literária oitocentista, mas também oferecendo a possibilidade de fixarmos melhor tanto este quanto aquele aspecto em sua especificidade e dinamismo históricos –, Watt defende uma crítica realista e uma atitude realista para com a literatura e as artes em geral como a melhor maneira de compreender a relação intrínseca entre arte e vida. Em outras palavras, ele enfatiza a necessidade de não esquecermos o fato primordial de que a literatura cobre um “vasto raio de ações e sentimentos humanos, de coisas lembradas e imaginadas” (se quisermos, na formulação de Antonio O realismo em nossa vida Prefaciais_14.indd 5 7/11/2010 18:13:29 Candido: “os elementos humanos formalmente elaborados”), fato esse que lhe outorga a faculdade “de ampliar nossas afinidades imaginativas”. Watt solicita, assim, uma visão ampla do realismo. Sua abordagem metodológica, cujos frutos germinaram no solo da crítica prática e do empirismo ingleses, da estilística de Auerbach, do pensamento marxista, das teses de Max Weber, Lukács, Adorno e Merleau-Ponty, pode ser empregada para examinar obras e autores tanto anteriores ao século XIX, quanto bem adentrados nas vanguardas do século XX – e isso sem contar outras formas artísticas, como o teatro, por exemplo. Esse ponto de vista combina com a perspectiva abrangente que norteou nossas discussões sobre o realismo e com o prisma teórico que nos ajudou a escolher os textos deste número e de seu precedente, ou seja, conforme observamos no editorial do número 13, no fundo combina com nosso interesse por apresentar a teoria e o exame das formas que buscaram e buscam representar a realidade social em andamento. Com 11 artigos, de um total de 14, voltados ao exame de obras do século XX e XXI, este número inverte a tendência ligeiramente mais acentuada na direção do século XIX, que havia na edição anterior. O volume abre com um artigo de Ismail Xavier sobre o cinema documentário, focando em Ônibus 174, de José Padilha, além dos filmes de Eduardo Coutinho, para explorar os ajustes entre os procedimentos específicos do cinema e aquelas estratégias que a sétima arte tem em comum com outras formas de discurso, como o teatro e o romance. Já o texto de Jean-Claude Bernardet, inserido na seção Rodapé, parte de um objeto e de uma proposta semelhantes (o cinema documentário e suas ligações com o romance), mas com direção e natureza muito diferentes (trata-se, afinal, de comentários escritos para um blog); ao mostrar a tensão entre os procedimentos narrativos que visam retratar a vida como ela é e aqueles que procuram romper com esse padrão, Bernardet faz uma interessante interpretação de Jogo de cena, de Eduardo Coutinho, visto como o Ulysses do filme documentário. O olhar para o século XX, embora buscando os nexos históricos e formais com o passado, prossegue com o artigo de Fábio de Souza Andrade, que, ao investigar o realismo que pode existir no teatro de Beckett, busca suas relações inusitadas com o “vago realismo” da tragédia Electra, de Eurípides. O jogo do contemporâneo com a obra antiga é empreendido também (naturalmente por outra via) por Gregório F. Dantas, que faz um cotejo entre o romance Pedro e Paula, do português Helder Macedo, e sua alardeada intertextualidade com Esaú e Jacó, de Machado de Assis. Regina Pontieri aborda duas ficções curtas, “A marca na parede”, de Virginia Woolf, e a recente “Célula de identidade”, de Bruno Zeni, observando como cada um desses textos, calcados no modo de hipertrofia da subjetividade, guarda na própria forma diferenças fundamentais que evidenciam etapas distintas de “instalação da barbárie”. As questões sobre identidade e subjetividade, bem como o exame da atual produção literária brasileira, retornam no artigo de Cristiane de Oliveira Fernandes Garcia sobre uma ficção curta de Modesto Carone. Na linha de pesquisa dos autores medianos, que mesmo assim revelam, na concepção de Antonio Candido, viva importância no estabelecimento do sistema simbólico de comunicação Prefaciais_14.indd 6 7/11/2010 18:13:29 inter-humana, Bianca Ribeiro investiga os romances Éramos seis e Gina, de Maria José Dupré. Simone Rossinetti Rufinoni, por sua vez, elabora, com base em dois romances de Cornélio Penna, uma análise que faz enxergar sob um ângulo novo a imbricação entre as concepções de realismo e introspecção. E Irenísia Torres de Oliveira toma como ponto de partida o realismo pela chave da sátira para debruçar- se sobre o romance Recordações do escrivão Isaías Caminha. O século XIX comparece nos estudos de Daniel Puglia, que avalia o “realismo utópico” nos grandes painéis da vida humana de Dickens; na análise de Au bonheur des dames, em que Salete de Almeida Cara procura perceber como o modo de mercantilização da vida surge transfigurado nesse romance de Zola; e ainda na pesquisa histórica de Ana Paula Freitas de Andrade, que trata dos fundamentos do verismo italiano, compreendido sobretudo por intermédio de seu maior expoente, o escritor Giovanni Verga. O século XX volta na discussão de Sandra Guardini T. Vasconcelos, que explica as bases teóricas de A ascensão do romance, de Ian Watt, principalmente o diálogo com a crítica prática inglesa e as conexões com Dialética do esclarecimento, de Adorno e Horkheimer. Esse processo de formação também é explicitado, pela via autobiográfica e analítica, no artigo supracitado de Ian Watt, incluído na seção Rodapé. O número se encerra com uma tradução inédita de Improviso de Ohio (Ohio Impromptu), de Samuel Beckett, peça escrita a pedido do crítico S. E. Gontarski para um simpósio internacional sobre o dramaturgo ocorrido na Ohio State University, e com as ficções curtas de Airton Paschoa, que devem figurar no próximo livro do autor: nelas a vida dos pinguins serve de contraponto irônico e sutil comentário zoomórfico para a azáfama humana em tempos sombrios.

                    COMISSÃO EDITORIAL

 

SUMÁRIO

ENSAIOS
14 • O exemplar e o contingente no teatro das evidências
ISMAIL XAVIER

24 • Caindo na real: notas sobre o realismo inusitado
em Beckett e Eurípides
FÁBIO DE SOUZA ANDRADE

36 • O realismo utópico de Charles Dickens
DANIEL PUGLIA

46 • Giovanni Verga e a construção do verismo
ANA PAULA FREITAS DE ANDRADE

66 • As erratas pensantes: uma leitura de Pedro e Paula,
de Helder Macedo
GREGÓRIO F. DANTAS

80 • Realismo e sátira nas Recordações do
escrivão Isaías Caminha
IRENÍSIA TORRES DE OLIVEIRA

100 • Realismo e perda da realidade: o naturalismo de Zola
SALETE DE ALMEIDA CARA

112 • Realismo e introspecção no romance de Cornélio Penna
SIMONE ROSSINETTI RUFINONI

124 • “O natal do viúvo” – ou o corpo paralisado
CRISTIANE DE OLIVEIRA FERNANDES GARCIA

136 • Onde foi parar o sujeito? – Experiências da
subjetividade na ficção do século XX
REGINA PONTIERI

148 • O realismo doméstico de Maria José Dupré
BIANCA RIBEIRO

170 • Ian Watt e a figuração do real
(anotações de leitura)
SANDRA GUARDINI T. VASCONCELOS

RODAPÉ
186 • Canhestro e deteriorado: as realidades do realismo
IAN WATT

204 • Anotações de um blog
JEAN-CLAUDE BERNARDET

FICÇÃO
210 • Improviso de Ohio
SAMUEL BECKETT

214 • A vida dos pingüins
AIRTON PASCHOA

217 • BIBLIOTECA
Publicações do Departamento

223 • APÊNDICE
Artigos publicados
Aos colaboradores
Onde encontrar a revista
Prefaciais

 

CONSELHO EDITORIAL
Adélia Bezerra de Meneses
Antonio Candido
Aurora Fornoni Bernardini
Beatriz Sarlo
Benedito Nunes
Boris Schnaiderman
Davi Arrigucci Jr.
Fredric Jameson
Ismail Xavier
Jacques Leenhardt
John Gledson
Ligia Chiappini Moraes Leite
Marlyse Meyer
Roberto Schwarz
Teresa de Jesus Pires Vara
Walnice Nogueira Galvão

PARECERISTAS DESTE NÚMERO
André Bueno
Homero Vizeu Araújo
Luis Alberto Brandão
Vinícius Figueiredo

COMISSÃO EDITORIAL
Ana Paula Pacheco
Betina Bischof
Marcelo Pen Parreira