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Literatura e Sociedade n. 8 (2005)

Literatura e Sociedade N.8 (2005)

 

A Revista Literatura e Sociedade está disponível online no Portal de Revistas da USP. Confira o conteúdo completo deste número, acessando nossa página: http://www.revistas.usp.br/ls/issue/view/1487

 

Editorial

         Embora o termo “revista” anuncie distância ponderada do que já foi passado a limpo pela história, tal não se dá, certamente, com a literatura contemporânea. Nem é possível apreciá-la recollected in tranquility nem se pode escolher uma perspectiva de tal forma abrangente que se tenha certeza de haver incluído e discutido o que seja, a longo prazo, mais significativo. Mais do que “memória do susto”, uma revista sobre a literatura atual é “véspera do trapezista”. Pois o presente é instável: o autor que hoje lançou um romance importante decide calar-se, ou escreve algo tão frágil amanhã que lança sombras retroativas sobre a qualidade do que fez antes. Em compensação, o poeta que agora compõe versos imaturos, daqui a dez anos escreverá um livro extraordinário. De modo que o aspecto de mosaico das publicações periódicas que tratam da produção de agora guardam a qualidade fecunda do segredo do futuro. Uma série de acasos marcam a feitura de uma revista: se alguns nomes fundamentais não puderam colaborar naquele momento, surpresas felizes permitem que textos instigantes nos venham às mãos. Assim, posto que nunca pretendêssemos apresentar um painel exaustivo, o detalhe significativo por vezes perfura e imanta camadas de questões antes dispersas. Esperamos que este número de Literatura e Sociedade mantenha a capacidade de reunião coesa, sem ser estreita, provocando o prazer do pensamento crítico.

           Optamos por abrir a seção de “Ensaios” com estudos sobre autores infelizmente ausentes do ponto de vista físico mas atuantes de muitas maneiras como pervasiva influência na literatura presente: um prólogo inédito a Rasga-Coração de Oduvaldo Vianna Filho seguido de texto escrito sobre ele nos foi presenteado por Maria Silvia Betti. A seguir, Ana Maria Domingues de Oliveira comenta a poesia de Antonio Carlos de Brito, o Cacaso, especialmente do ponto de vista de suas leituras modernistas. Caio Fernando Abreu comparece em artigo de Jaime Ginzburg, que destaca o autoritarismo social que permeia a trama de seus contos. Concluímos esta primeira parte com texto sobre a prosa vibrante de Waly Salomão em Me segura que eu vou dar um troço, escrito por Roberto Zular. Formas marcantes e diversas de posição estética e política que fundamente sulcaram nossa trajetória contemporânea aqui se apresentam, seja o teatro engajado dos anos 60, seja a poesia marginal dos 70, o tropicalismo entre a ficção e a confissão da virada destas décadas, o conto entre o existencial e o social daqueles anos: enfim, escritores que sustentam e embebem com sua seiva a produção contemporânea.

          Ainda neste bloco, seguimos adiante com artigos de fôlego sobre questões que abrangem vários autores agrupados de acordo com temas e dilemas: Flora Sussekind privilegia a experiência urbana comparando (e mesmo contrastando) os caminhos da poesia e da prosa, a partir do tema onipresente da “desterritorialização” (imigração, inadaptação social, violência, exclusão). Célia Pedrosa contempla o lugar do olhar na poesia, destacando três poetas que resgatam da descartabilidade a experiência através da imagem. Vilma Arêas analisa narrativas próximas da morte, e discute a fronteira – entre vida e doença, entre diário e literatura. Regina Dalcastagnè analisa diferentes formas do tempo na narrativa atual, relacionando-as a questões da vida na cidade. Andrea Saad Hossne pesquisa a situação limite da literatura na prisão, confrontando relatos atuais com seus precursores, e interrogando-se sobre a relação entre romance e autobiografia. E contamos com ensaios sobre Raduan Nassar, de André Luis Rodrigues, em que o autor analisa, em Lavoura arcaica, a reunião que se dá entre sujeito cindido e família, tanto na forma quanto no conteúdo do romance; sobre João Ubaldo Ribeiro, de Rita Godet, que repropõe a partir da análise de Vila Real, o tema da errância migratória do povo brasileiro; e sobre o poeta português Luís Miguel Navas, de Carlos Mendes de Souza, que nos reaviva a escrita como ferida. Por fim, Marjorie Perloff apresenta poetas americanos descendentes da Language Poetry, repensando sua contribuição à inovação criadora nos E.U.A.

            Depois, abrimos a seção “Depoimentos”, inédita para nossa revista, e necessária ao tema que nos propusemos explorar. Quatro autores recentes, dois ficcionistas (Juliano Garcia Pessanha e Bernardo Carvalho) e dois poetas (Fábio Weintraub e Sérgio Alcides) comentam sua forma de criação.

           A seguir, publicamos entrevista do poeta Armando Freitas Filho, feita por Heloísa Buarque de Hollanda e Maria Rita Kehl, graciosamente cedida para este número.

          Recebemos, para nosso “Rodapé” - em que procuramos re-editar textos de acesso restrito - artigo de Roberto Ventura publicado somente na Alemanha a respeito da escrita experimental brasileira (dentre outros, Galáxias, de Haroldo de Campos, e Catatau, de Paulo Leminski) e dois ensaios que saíram apenas em jornal: um, de José Miguel Wisnik sobre a música popular recente em São Paulo, e outro em necessária homenagem à escritora Hilda Hilst, escrito por Jorge Coli.

           Finalmente, a seção “Biblioteca” destaca publicações recentes de professores do departamento.

           Como de costume, a comissão editorial mantém o rodízio entre seus membros, de forma que a cada número um de nós seja o principal organizador da revista. Desta vez coube à professora Viviana Bosi a responsabilidade pela escolha do tema e dos artigos.

            Apesar dos percalços, mantém-se vivo o diálogo do qual pretendemos sempre participar, contribuindo com a reflexão sobre a cultura, a partir dos embates diários com a pesquisa e a sala de aula.

 

SUMÁRIO

 

Artigos

Apontamentos sobre Prólogo inédito para “Rasga coração” (fragmentos) de Oduvaldo Vianna Filho (1936/1974)
Maria Silvia Betti

Dever de caça: a poesia de Cacaso
Ana Maria Domingues de Oliveira

Exílio, memória e história: notas sobre Lixo e purpurina e Os sobreviventes de Caio Fernando Abreu
Jaime Ginzburg

O que fazer com o que fazer? Corpo e linguagem no Me segura que eu vou dar um troço de Waly Salomão
Roberto Zular

Desterritorialização e forma literária (literatura brasileira contemporânea e experiência urbana)
Flora Sussekind

Poéticas do olhar na contemporaneidade
Célia Pedrosa

Narrativas in extremis
Vilma Arêas

Vivendo a ilusão biográfica (a personagem e o tempo na narrativa brasileira contemporânea)
Regina Dalcastagnè

Autores na prisão, presidiários autores: anotações preliminares de Memórias de um sobrevivente
Andrea Saad Hossne

“A casca e a gema”: reunião. O anseio pelo absoluto em Lavoura arcaica, de Raduan Nassar
André Luis Rodrigues

Vila Real de João Ubaldo Ribeiro: errância e combate
Rita Olivieri-Godet

A coroação das vísceras (Representação do avesso na poesia de Luís Miguel Nava)
Carlos Mendes de Sousa

Depois da poesia da linguagem: a inovação e seus descontentes teóricos
Marjorie Perloff

 

Depoimentos

O Trem, o Entre e o Paradiso Terrestre

Juliano Garcia Pessanha

Minha cegueira
Bernardo Carvalho

O tricogaster azul

Fábio Weintraub

Rapto: para dentro do poema

Sérgio Alcides

 

Entrevista

Armando Freitas Filho, entrevistado por Heloísa Buarque de Hollanda e Maria Rita Kehl

 

Rodapé

Prosa experimental no Brasil

Roberto Ventura

Te-manduco-não-manduca: a música popular de São Paulo

José Miguel Wisnik

Pequena homenagem a Hilda Hilst

Jorge Coli

 

Biblioteca

Publicações do Departamento
 

COMISSÃO EDITORIAL

Sandra Nitrini (coord.)
Maria Augusta Fonseca
Viviana Bosi